Uma Mente Compulsiva

Um capítulo do livro
Uma Mente Compulsiva

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Uma Mente Compulsiva

Caindo nas garras do álcool.

A minha experiência e os relatos que ouvi de Ricardo mostram que a obsessão e a compulsão, principalmente por álcool e outros tipos de drogas, não escolhem as vítimas. Pode ser homem, mulher, criança, velho, rico, pobre, elas atacam de forma igual. E o pior, antes de matar, desmoralizam o ser humano.

Ricardo provou bebida alcóolica pela primeira vez quando tinha cinco anos de idade, ao tomar quase meia garrafa de vinho. Aos treze anos tomou seu primeiro porre, mas foi aos dezesseis anos, após a morte prematura do padrasto, que caiu no mundo do álcool.

Pessoas que bebem ocasionalmente, os chamados bebedores sociais, dizem que é muito bom o efeito do álcool no organismo, pois deixa a pessoa mais à vontade, desinibida, falando mais facilmente. Realmente, para quem não tem problemas com álcool, pode ser bom.

O problema da pessoa obsessiva e compulsiva que cai nas garras do álcool é que ela passa desta fase mais leve de alegria, em que até se torna uma pessoa mais agradável e extrovertida, para um estágio mais avançado de consumo, em que não consegue parar de beber. A situação começa a evoluir então para uma noite desastrosa.

O prazer dos bebedores compulsivos obsessivos não são o ambiente e a companhia. O que querem mesmo é beber e quando percebem já perderam o controle de tudo. Com os bebedores sociais acontece de uma forma diferente, eles param na fase do prazer, procuram ir limitando o consumo de bebida e começam a se controlar.

Quando uma pessoa começa a beber em casa ou num bar, antes de ir a uma festa onde haverá muita bebida, preste atenção, existe algo de errado com ela. Ricardo já havia chegado a este ponto. Um perfeito exemplo de dependência química.

Algumas características que Ricardo tinha quando estava descontrolado no consumo de álcool. Observe se você conhece alguém que se comporta assim:

– Sai de casa dizendo que vai ali pertinho tomar uma cerveja com amigos e, depois de horas, volta para casa bêbado, cai na cama e só acorda no dia seguinte;

– Vai a uma festa com a família, começa a beber, fala alto e conta piadas indecentes sem se preocupar com quem está ao lado;

– Quando está à mesa bebendo descontroladamente, começa a achar que é rico e paga toda a despesa;

– Se arruma para ficar bonito, bebe muito e quer conquistar até a mulher do amigo, a irmã da sua mulher ou a secretária da casa em que está;

– Alguém pede para ele parar de beber numa festa e ele diz que não tem problema com bebida e que pode parar quando quiser, mas nunca para e acaba voltando carregado para casa;

– Quando os amigos, a mulher e os filhos já vão lhe avisando antes de sair de casa para ele não beber muito e procurar se controlar;

– Diz que não se lembra do que fez e tem amnésia alcoólica;

– É uma pessoa sóbria de um jeito dócil e, quando bebe, se transforma em uma pessoa violenta;

– O garçom precisa colocar a pessoa alcoolizada no taxi pois ela não tem condições de dirigir. No dia seguinte, quando vai procurar o carro na garagem para sair, descobre que o deixou no bar;

– Fica mudando o tipo de bebida. Diz que só vai tomar bebida quente, depois só vai tomar cerveja, depois só vinho e sempre acontece a mesma coisa, começa, não para, fica bêbado;

– Começa a ter conta em vários bares e depois tem que evitar ir a esses lugares pois ainda não tem dinheiro para pagar os débitos;

– Acorda e promete a todo mundo que não vai beber mais.  Na primeira chance diz que vai beber só um pouquinho e quando dá o primeiro gole, não consegue mais parar;

– Suborna o garçom para não faltar bebida para ele.

Com Ricardo todas essas situações aconteceram e muito mais. Uma vez ele foi a uma boate. À noite, uma das ruas nas proximidades da casa de eventos era fechada para virar estacionamento, voltando a funcionar normalmente no dia seguinte. Como ele foi carregado para casa bêbado, foi obrigado a deixar seu carro na boate.

Quando foi buscar no dia seguinte, o carro estava praticamente no meio da rua e, o Poder Superior mais uma vez protegeu Ricardo e por milagre não rebocaram o carro dele.

Outra vez foi convidado por uma grande empresa para o lançamento de um produto onde, com certeza, teria muita bebida alcóolica. Como já estava no estágio de começar a beber antes mesmo de chegar na festa, no final foi encontrado alcoolizado deitado no jardim da empresa. Mais uma vez foi levado para casa. No dia seguinte teve de ir apanhar seu carro deixado no estacionamento onde acontecera a festa.

A pessoa que tem problema com obsessão e compulsão por bebida alcóolica sempre acorda envergonhada, se sentindo culpada do que fez e arrependida. Ela sabe que não foi normal, mas não quer acreditar que tem um problema sério, ela não aceita que está doente e que precisa de ajuda e tratamento. Com Ricardo era assim também.

Uma coisa que percebi nas visitas às clinicas, grupos de mútua ajuda, nos cursos que fiz e com os depoimentos do Ricardo, é que pessoas com problemas de obsessão e compulsão não são fracas, safadas, e não sabem se controlar. Na verdade, elas são doentes e precisam de ajuda.

Alguém realmente acredita que uma pessoa fica feliz em beber até cair todas às vezes? Que estoura todo o cartão de crédito de propósito? Não é bem assim, a doença quando não controlada tira qualquer força da pessoa.

Quantas vezes à noite Ricardo saiu de casa arrumado, cheiroso, limpo, fazendo planos para uma diversão saudável. Ele ia apenas tomar umas cervejas, voltar cedo para casa e no dia seguinte trabalhar.

Deu tudo errado. Ricardo só voltou para casa no dia seguinte, sujo, carregado e desmoralizado.

Certa vez ele foi assistir a um show, mas já chegou “ligado”, lá encontrou alguns amigos que já estavam bebendo, havia uma multidão assistindo ao show. Ricardo já estava misturando cerveja, whisky, mel (conhaque com mel) e já não se aguentava mais em pé.

Com isso, quanto mais ficava bêbado, mais se afastava dos amigos que estavam com ele, acabando por se tornar uma presa fácil para bandidos. Ele conta que só lembra de duas coisas, uma de dizer a um amigo que ia logo ali e a outra, de quando acordou.

Simplesmente ele estava sem camisa, sem relógio, sem tênis. Ficou apenas de calça comprida, embaixo de uma escada, e sem saber como chegou lá. Não tinha mais dinheiro e nem documentos. Foi obrigado a pegar um ônibus só de calça para ir embora para casa.

Desmoralizado, não sabia o que falar para sua mãe. E o que é pior, a depressão começou a se manifestar. Sem nenhuma orientação médica, passou dias sofrendo de depressão moral.